Factos concreto e pontuais

Apontamentos sobre Nota do PCP sobre a violência policial no Bairro da Jamaica

É com um enorme “pudor” que a direcção do PCP aborda os acontecimentos no Bairro Jamaica.

Transcrevo a nota da direcção do PCP:

“O PCP não alimentará a corrente dos que a propósito de factos concretos e pontuais agem para os generalizar. Fazê-lo seria animar um ambiente de insegurança e intranquilidade.

Como é público a PSP abriu um inquérito aos acontecimentos ocorridos em Vale de Chícharos.

Eventuais situações de recurso a violência não justificada, naturalmente condenável e que deve ser prevenida, não podem contribuir para desvalorizar a acção das forças de segurança e dos seus profissionais.”

A direcção do PCP não parte de factos concretos, classificando-os de pontuais.

Como, por exemplo e entre outros, pontualmente Kuku foi abatido a tiro.

Como pontualmente jovens africanos e portugueses afro-descendentes são regularmente revistados sem legitimidade, insultados e agredidos por elementos das chamadas forças de ordem.

Como, pontualmente, dirigentes do Moinho da Juventude e outros jovens foram torturados na Esquadra de Alfragide.

Como pontualmente, segundo a própria Inspecção das forças de segurança reconhece a infiltração da extrema-direita nas forças de segurança.

Tudo isto é concreto e pontual, mas que a direcção do PCP rejeita como base da generalização necessária, isto é, que as forças repressivas do Estado reflectem o racismo institucional no nosso país.

Isto porque não quer “animar um ambiente de insegurança e intranquilidade.”

Mas um clima de insegurança e intranquilidade é o pão nosso de cada dia nos bairros de africanos e luso-descendentes, nos bairros sociais, nos guetos que existem por todo o lado.

E para a juventude africana e afro-descendente esse ambiente amplia-se a todo o lado que estejam, com uma atitude normal – havendo excepções, é claro – de suspeição e discriminação por parte das populações e das forças policiais.

É, aliás, à luz esse racismo institucional que trespassa a nossa sociedade que se compreende uma parte dos «caldos de galinha» da direcção do PCP no tratamento das questões do racismo: a sua base eleitoral é profundamente permeável à pressão racista e no PCP não se prima pela formação social, para não falar de política, dos seus militantes e simpatizantes.

Aliás, é de um pudor comovente a designação do Bairro da Jamaica como Vale dos Chícharos.

É que o Jamaica fica no seio de uma autarquia dirigida pelo PCP… e é um bairro que não faz brilhar o propagado “Trabalho, Honestidade e Competência” imagem de marca da CDU.

É claro que a quem compete uma intervenção de fundo na reabilitação urbana é ao Estado. Mas, que diabo, não seria por isso mais um motivo para os autarcas e organização local do PCP lutarem, lado a lado com a população desse bairro, pela resolução desse problema?

Mas, talvez, o mais tocante na posição da direcção do PCP é o carinho com que trata as forças de segurança. Valorizemos, pois as forças de segurança….

Elas existem primordialmente, para defender os interesses da classe dominante, do patronato, dos especuladores, da grande finança, isto é, primordialmente existe não para a segurança pública mas para impor a Ordem capitalista. Esta era a valorização necessária das forças de segurança, não a mistificação e idealização que a direcção do PCP faz com esta Nota.

Ansiosa Por mostrar um partido responsável perante as instituições da burguesia, a direcção do PCP passa pela análise marxista à função social das forças de segurança no contexto do capitalismo.

É claro que as tão suportadas forças de segurança continuaram a intervir ilegalmente nos piquetes de greve a favor do patronato, nos despejos a favor dos especuladores, nos bairros pobres e em todo o lado que o real poder do Capital esteja em causa.

E os militantes e simpatizantes do PCP ficaram um pouco menos armados para entender as forças de segurança e, consequentemente defenderem-se do seu real papel social: a defesa da classe dominante e a repressão aos explorados e oprimidos .

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