A altura certa de romper com a Gerigonça foi ontem…

A minha amiga e companheira de lutas Isabel Faria publicou um post, que reproduzo, colocando em letra de forma o que vai na alma de muita gente de esquerda face ao desenrolar da vida social e política do pais.
Diz ela:
 
“Saúde, Educação, Trabalho, Defesa, Transportes…
O problema não são só os ministros, ok?
O problema é um Governo que com o aproximar do fim da Legislatura faz questão de “se assumir”.
O PS está cada dia que passa mais empenhado em afrontar os que, no Parlamento, sustêm o seu Governo. E um dia destes, mais cedo que tarde, o PCP e o BE vão ter que dizer Basta.
Como se diz? Qual é a altura (mais) certa para o fazer? Não sei.
Mas eu, como eleitora assumida de um dos Partidos que viabilizou este Governo, tenho cada dia mais dificuldade em responder aos constantes “entãos” dos que me rodeiam. E aos meus “entãos?”, então nem se fala”
(fim de citação)
 
Por mim, há muito que é claro que o PS, passando a fase da necessidade de “flores de lapela de esquerda”, prepara agora um futuro governo maioritário, ensaiando um “bloco central” inofensivo, com um (“PSD em frangalhos“) e o zigzage parlamentar, definido pela defesa acérrima dos interesses do patronato em sede de parlamento – leis laborais, entre outras – e mais uns pózinhos de cheirito a esquerda para contentar os papalvos.
 
Não detenho ilusões por ai além nas direcções do partidos da Esquerda Parlamentar, O seu «realismo possibilista» manieta não só uma alternativa de sociedade – ambos se reivindicam de socialismo, sendo que uns com um vago «socialismo popular» e outros como uma fase intermédia ainda mais vaga “governo patriótico de esquerda”.
Que houve reposição de rendimentos: vejam lá bem, ao pormenor e verão que a coisa foi mais cosmética que real.
Acabou a arrogância governamental?
A aliança entre os grupos parlamentares da Direita e governamental para barrar as alterações gravosas e insultuosas para os trabalhadores no Código de Trabalho; a sanha governamental contra os professores ou as ameaças veladas do ex-trostkista Augusto Santos Silva, actual caceteiro mor de serviço do PS, dão um vislumbre da realidade para além da propaganda.

Os avanços em direitos sociais conquistados por exemplo, pelos deficientes, esbarram no crivo destruidor do cumprimento do defict.

O programa neoliberal marca terreno na Habitação, com a rédea solta aos especuladores, apesar de uma promessa de uma tal Lei de Bases da Habitação. O que marca os dias que correm são a promoção de PPPs para resolver este gravoso problema e os despejos em crescendo de famílias pobres e trabalhadoras..
Mas o que mais me toca é a adaptabilidade da Esquerda parlamentar ao possibilismo e realismo na defesa do Salário Mínimo. Sabem bem que um salário mínimo de dignidade rondaria os 1000€ brutos (o que equivale a aproximadamente 750 líquidos). Mas, para darem provas de seriedade e contenção (provas a quem?) defendem 650€ que não tiram ninguém da pobreza, no qual uma fatia importante dos trabalhadores no activo estão a ser atirados, via precariedade, via politica fiscal, etc. etc.
Ao invés de fazerem campanha pelo NECESSÁRIO explicando que a falta de dinheiro provem da iniquidade de um sistema baseado no lucro privado, na apropriação privada dos meios de produção, na utilização da banca para o branqueamento de capitais e fugas massivas aos impostos por parte dos grandes grupos económicos e grandes fortunas familiares, mal levantam a voz contra o sistema em si, preferindo apresentar propostas “realistas” de melhorar o sistema.
Na verdade, as direcções dos partidos da Esquerda parlamentar sentem-se entre “a espada e a parede” entre continuar a fechar os olhos à viragem ao bloco central e regresso ao neoliberalismo da direcção do PS, e o medo atávico de serem apodados de extremistas e radicais.
3Gerinçonça
Cada uma à sua maneira, as direcções do Partidos de Esquerda parlamentar deitam-se na cama que fizeram.
Quando o PS negociou a geringonça houve todas as condições – através da esperança gerada – de desenvolver acções de massas que forçassem o Costa a ir mais longe do que queria ir. Medrosamente, as direcções dos Partidos da Esquerda Parlamentar ajudaram à “paz social”, um campo fértil para a recuperação das forças da direita, que deixam de ser pressionadas pelas trabalhadores e suas organizações.

Agora, com a pretensa recuperação económica – o desemprego mantém-se a um nível brutal – o PS ganhou, através de meias verdades e embustes – aceitação popular e os partidos de Esquerda Parlamentar correm o risco de se tornarem desnecessários ao PS num próximo futuro.
Mas se realmente não tenho nenhuma esperança nas direcções dos partidos da Esquerda parlamentar, deposito confiança nos seus militantes, activistas e simpatizantes e na sua vontade de romper as baias que nos prendem a um governo que, – em tudo o que é fundamental: Salários, Pensões, Saúde, Educação, Habitação, Segurança Social, – difere minimamente das politicas da PAF e da Troika.
A luta dos professores e no Ensino, a luta pelos serviços públicos, a luta pelo direito à Habitação, a luta por salários decentes tudo são campos que podem e necessitam de confluir numa crescente acção colectiva que confronte os limites da economia de mercado para dar as respostas às necessidades dos trabalhadores e suas famílias.
Se os militantes, activistas e simpatizantes dos partidos da Esquerda Parlamentar romperem o medo e entrarem em luta séria – e o mesmo exigiram às direcções das suas organizações – pode-se construir uma alternativa social, económica e politica ao sistema de lucro privado:

Um projecto de sociedade de verdadeira Democracia Socialista, onde os recursos e os meios de produção estejam ao serviço de todos e não para gerar lucro privado.

Creio que nestas linhas de luta e acção, muitos militantes, activistas e simpatizantes do BE do PC do PEV e sem partido mas à esquerda, poderão encontrar caminhos comuns para uma luta comum.

Querida Isabel Faria, o tempo foi ontem, é tempo de (Re)Começar de Novo

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