Está mesmo um frio de rachar…

Está mesmo um frio de rachar.

As mãos, contudo, gritam sussurros nas cordas da guitarra e a música…
Ah, a música flui como um rio de lava na tarde fria.

Gosto de improvisar… sei lá… deixar-me ir na corrente e saltar e deslizar e estancar, como cavalo indómito no braço da velha guitarra.

Mas o que gosto mais é das pessoas, de como elas reagem – ou não – à musica que lhes toco.

Já sei que ser musico de rua é um merda…

Isto é, nem sempre é bom, mas dá para a bucha e para as bjecas, para o quarto e pro tabaco.

E não trocaria isso por um emprego das 9 às 5 , por uma cabana e jardim… enfim… sabem como é…

Quando me canso dum sitio, de uma rua, de uma cidade, vou embora. Eu, a mochila, a guitarra.

Mas o que gosto mesmo é de tocar, ou das pessoas, ou das pessoas que reagem à musica…

Enfim…

Estão a ver aquela senhora ali de saia-casaco verde?

Tem vindo agora qual relógio de ponto, por volta das 5:30, 6.
Esta ali um bocado, sorri, larga sempre uma moeda e vai embora.

A musica dela – sim as pessoas tem as suas musicas que sacam do meu reportório não muito grande – a musica dela é o Don’t worry, dos Dire Straight.

Suponho que ela aprendeu a não se preocupar recentemente…

Não sei, pelo jeito meio tímido de se embalar na musica, mantendo uma quase compostura à sua volta.

Mas estou a vê-la um dia a quebrar a barreira e a realmente dançar com a musica…e para todos os que a rodeiam.

Notei-a aí no terceiro ou quarto dia que parei aqui. Creio que trabalha num escritório. Mas ao contrário de muitas e muitas outras pessoas, não escritoriza a vida… (risada)

Escritoriza a vida…

Ah, pois, às vezes ponho-me a inventar palavras. Elas jogam com a musica ou fundem-se nela, mas mais nas pessoas que passam ou ficam à espera da sua musica ou apenas estão ali por uns momentos descobrindo que há muito tempo não dão valor à música.

Ela dá. Sente-se que sim, aquele baloiçar, o sorriso para si mesma, o corpo a implorar movimento…

E aqui estou eu, com as mãos a acariciarem as cordas como se fossem a sua face, a sua pele lisa e suave – é o que imagino – e a tirar da guitarra os gemidos consentidos de um devaneio de músico de rua. Pesno comigo: um dia olho-a nos olhos e irei sorrir como um Sol de Verão. Depois… logo se vê.

A tarde cai e com ela o frio ganha mais audácia da que tenho para sorri à senhora de saia casaco verde.

Mas sim, está mesmo um frio de rachar

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